Quem conta uma história
Português · 6º ano · 2º Bimestre · BNCC EF69LP47, EF69LP48, EF06LP05, EF06LP06
neuren
Apostila · Ensino Fundamental
Quem conta
uma história
Português · 6º ano · 2º Bimestre
início
complicação
clímax
desfecho
Capítulos 4
Leitura ~65 min
Questões 12
BNCC Narrativa · Verbos
O que você vai aprender
Abertura do bimestre
A mesma história, contada por outra pessoa
Pense numa briga entre dois colegas. Se você ouvir a versão de um, depois a do outro, e depois a de quem só assistiu, terá três histórias diferentes — sem que ninguém tenha mentido.
É isso que este bimestre estuda: quem conta muda o que é contado . É a mesma ideia de ponto de vista do 1º bimestre, agora dentro da ficção — onde ela vira uma ferramenta que o autor escolhe de propósito.
O caminho do bimestre
Cap. Do que trata
Os elementos da narrativa — enredo, personagem, tempo, espaço
O narrador — quem conta e de que posição
Tempos verbais — o motor do ritmo narrativo
Discurso direto e indireto — como dar voz ao personagem
Por que isso serve fora da aula de Português
Entender narrador é entender por que duas reportagens sobre o mesmo fato soam diferentes, por que um filme te faz torcer por um personagem, e por que a versão de alguém sobre uma discussão nunca é a história completa.
O enredo
Capítulo 1 · Os elementos da narrativa
Toda história tem um esqueleto
Narrar é contar fatos que acontecem numa sequência, envolvendo personagens, num tempo e num espaço. O enredo é essa sequência — o que acontece, na ordem em que acontece.
As partes do enredo
Parte O que faz Exemplo
Situação inicial
Apresenta o normal, antes do problema
Ana vai à escola todos os dias pelo mesmo caminho.
Complicação
Surge o conflito que quebra o normal
Um dia, a rua está interditada.
Clímax
Momento de maior tensão
Ela se perde no caminho alternativo e a prova começa em dez minutos.
Desfecho
Resolve (bem ou mal) o conflito
Chega atrasada, mas a professora deixa fazer a prova.
Sem conflito não há história
"Ana foi à escola, assistiu às aulas e voltou para casa" não é narrativa — é relato de rotina. História precisa de algo que quebre o esperado . Esse algo é o conflito, e é ele que prende quem lê.
A ordem contada não é a ordem vivida
Muitas narrativas não começam pelo começo. Um conto pode abrir no meio da ação e depois voltar para explicar como se chegou ali — o flashback . Outras começam pelo fim e mostram o percurso.
Isso é escolha de quem escreve, e serve para criar suspense ou destacar algo.
Personagem, tempo e espaço
Capítulo 1 · Os elementos da narrativa
Quem, quando e onde
Personagens
Tipo Papel
Protagonista
Personagem central; a história gira em torno dele
Antagonista
Opõe-se ao protagonista (pode ser pessoa, situação, medo)
Secundários
Participam sem ocupar o centro
Personagens podem ser planas (têm poucos traços e não mudam) ou redondas (complexas, contraditórias, transformam-se ao longo da história). Nenhuma das duas é melhor — depende do que a narrativa precisa.
Antagonista não é o mesmo que vilão
O antagonista é o que se opõe ao protagonista. Pode ser um vilão, mas também pode ser a timidez de quem precisa falar em público, uma tempestade, ou a falta de dinheiro. Muitas histórias boas não têm nenhum personagem mau.
Tempo
Cronológico: os fatos aparecem na ordem em que aconteceram.
Psicológico: segue a memória e a percepção de quem vive — um segundo de susto pode ocupar uma página inteira.
Espaço
Onde acontece. E o espaço quase nunca é só cenário: ele cria clima. Uma discussão numa cozinha iluminada e a mesma discussão num corredor escuro produzem efeitos diferentes no leitor — e o autor sabe disso ao escolher.
Pratique
Capítulo 1 · Prática
Pratique o que leu
Questão 1 básica
Qual parte do enredo apresenta o momento de maior tensão?
Situação inicial
Complicação
Clímax
Desfecho
Clímax. É o ponto alto da tensão, para onde a complicação vinha empurrando a história. O desfecho vem logo depois e resolve o conflito.
Questão 2 intermediária
Por que "Pedro acordou, tomou café e foi trabalhar" não configura uma narrativa completa?
Porque é curta demais para ser considerada história.
Porque não apresenta conflito: nada quebra o esperado.
Porque não indica o espaço onde os fatos ocorrem.
Porque está escrita no pretérito perfeito.
Porque não há conflito. Há sequência de fatos e um personagem, mas nada rompe a rotina — e é o conflito que transforma uma sequência em narrativa. Tamanho e tempo verbal não são o problema.
Questão 3 avançada
Numa história em que a protagonista precisa vencer o próprio medo de falar em público, o que exerce a função de antagonista?
O medo dela, pois antagonista é o que se opõe ao protagonista, não necessariamente um vilão.
Nenhum, pois sem um personagem mau não existe antagonista.
A plateia, que é sempre a vilã nesse tipo de história.
A própria protagonista deixa de existir como personagem.
O medo dela. O antagonista é definido pela função — opor-se ao protagonista — e não por ser uma pessoa má. Pode ser um sentimento, uma circunstância ou um fenômeno natural.
Quem está contando
Capítulo 2 · O narrador
A voz que conduz a história
Narrador é a voz que conta. E aqui está a distinção mais importante do bimestre:
Narrador não é o autor
O autor é a pessoa real que escreveu o livro e existe no mundo. O narrador é uma voz criada dentro da obra. Um autor de 50 anos pode criar um narrador de 8; uma autora pode criar um narrador homem; um autor honesto pode criar um narrador mentiroso. Confundir os dois é o erro mais comum ao analisar narrativa.
Narrador em 1ª pessoa
Usa eu . Está dentro da história.
" Cheguei atrasado e vi que todos já tinham começado.
Senti o rosto esquentar."
Vantagem: acesso direto aos sentimentos de quem narra; cria proximidade.
Limite: só sabe o que viu ou viveu. Não sabe o que os outros pensam.
Pode ser protagonista (conta a própria história) ou testemunha (participa, mas o centro é outro personagem).
Narrador em 3ª pessoa
Usa ele/ela . Está fora da história.
" Ele chegou atrasado e viu que todos já tinham começado.
Sentiu o rosto esquentar."
Observador: relata o que se vê e se ouve, sem entrar na cabeça de ninguém.
Onisciente: sabe tudo — pensamentos, passado, futuro, o que cada personagem sente.
Como identificar rápido
Procure os pronomes e as formas verbais. Eu cheguei → primeira pessoa. Ele chegou → terceira. Depois, se for terceira, pergunte: o texto revela o que se passa dentro dos personagens? Se sim, é onisciente; se só descreve o visível, é observador.
A escolha muda tudo
Capítulo 2 · O narrador
O mesmo fato, três narradores
Uma cena simples: um menino quebra um vaso na casa da avó.
1ª pessoa (protagonista)
"Eu jurei que não tinha encostado no vaso. Não era bem verdade, mas a vovó parecia tão triste que menti sem pensar."
3ª pessoa observador
"O menino olhou os cacos no chão e disse que não havia encostado no vaso. A avó ficou em silêncio."
3ª pessoa onisciente
"O menino mentiu por medo. A avó percebeu na hora, mas achou que aquele não era momento de cobrar — pensava no marido, que trouxera o vaso da viagem."
O que cada escolha entrega ao leitor
Narrador O leitor sabe Efeito
1ª pessoa
Só o que o menino sabe e sente
Proximidade; e dúvida — será que ele conta tudo?
3ª observador
Só o visível
Distância; o leitor precisa inferir
3ª onisciente
Os dois lados, inclusive a memória da avó
Amplitude; menos suspense, mais compreensão
O narrador não confiável
Em 1ª pessoa existe uma possibilidade interessante: o narrador pode estar errado, ou mentindo, sem admitir. O leitor atento percebe pelas contradições. Muita história boa se constrói sobre isso — e é uma ponte direta com o capítulo 1 do bimestre passado: quem conta escolhe o que dizer.
Pratique
Capítulo 2 · Prática
Pratique o que leu
Questão 4 básica
"Naquela tarde, eu descobri que meu irmão tinha guardado o segredo por anos." Qual é o tipo de narrador?
3ª pessoa onisciente
3ª pessoa observador
1ª pessoa
Não há narrador nesse trecho
1ª pessoa. O pronome "eu" e a forma verbal "descobri" mostram que quem narra está dentro da história, contando algo que viveu.
Questão 5 intermediária
Qual trecho indica um narrador onisciente ?
"Marina abriu a porta e saiu sem dizer nada."
"Marina saiu sem dizer nada, embora quisesse gritar que estava magoada havia meses."
"Eu vi Marina sair sem dizer nada."
"Marina! — gritou o irmão da sala."
O segundo trecho. Ele revela o que Marina sentia por dentro e há quanto tempo — informação a que só um narrador onisciente tem acesso. Os outros mostram apenas ações e falas visíveis, ou narram em primeira pessoa.
Questão 6 avançada
Por que é incorreto afirmar que "o narrador é o autor do livro"?
Porque todo livro é escrito por mais de uma pessoa.
Porque o narrador só existe em textos de terceira pessoa.
Porque o autor é a pessoa real que escreveu, e o narrador é uma voz criada dentro da obra, que pode ter idade, gênero e opiniões diferentes.
Porque autores nunca escrevem em primeira pessoa.
Porque o narrador é uma voz criada. Um autor pode inventar um narrador criança, de outro gênero, de outra época — ou até um narrador que mente. Tratar as opiniões do narrador como opiniões do autor é um erro clássico de leitura.
Perfeito e imperfeito
Capítulo 3 · Tempos verbais
Dois passados que fazem coisas diferentes
Narrar exige o passado — mas o português tem mais de um, e cada um cumpre uma função na história.
Tempo Indica Exemplo Na narrativa
Pretérito perfeito
Ação concluída, pontual
chegou, abriu, disse
Faz a história avançar
Pretérito imperfeito
Ação em curso, repetida ou habitual
chegava, abria, dizia, era
Descreve o cenário e o hábito
Veja os dois trabalhando juntos
"A casa era velha e o portão rangia ao vento. ← imperfeito: cenário
Naquela noite, alguém bateu à porta." ← perfeito: acontece
Repare no efeito: o imperfeito monta o mundo, sem pressa; o perfeito quebra a calma com um fato. É assim que boa parte das narrativas funciona — descrição em imperfeito, acontecimento em perfeito.
Exemplo resolvido · identificando a função
"Todo dia ele passava pela mesma padaria. Numa terça-feira, entrou ."
"Passava" — imperfeito. Indica hábito: acontecia repetidamente, sem data.
"Entrou" — perfeito. Ação única e concluída, com data marcada.
O efeito: a rotina é quebrada. Duas palavras estabelecem o normal e a ruptura — ou seja, situação inicial e complicação, do capítulo 1.
✕ Erro comum
"Ontem eu ia na casa dela e conversava com a mãe dela sobre a festa."
Usa imperfeito para fato único e concluído.
✓ Forma adequada
"Ontem eu fui à casa dela e conversei com a mãe dela sobre a festa."
Fato único e terminado pede pretérito perfeito.
Pratique
Capítulo 3 · Prática
Pratique o que leu
Questão 7 básica
Em "O menino corria todas as manhãs pela praia", o tempo verbal indica:
Uma ação única, concluída num momento específico.
Uma ação habitual, repetida no passado.
Uma ação que vai acontecer no futuro.
Uma ordem dada ao menino.
Ação habitual. "Corria" é pretérito imperfeito, e a expressão "todas as manhãs" confirma a repetição. Se fosse ação única, seria "correu".
Questão 8 intermediária
Em "A rua estava deserta quando o carro parou na esquina", qual é a função de cada verbo?
"Estava" faz a história avançar; "parou" descreve o cenário.
Os dois descrevem o cenário igualmente.
"Estava" descreve o cenário; "parou" traz o acontecimento que faz a história avançar.
Os dois indicam ações habituais e repetidas.
"Estava" descreve; "parou" acontece. O imperfeito monta a cena (rua deserta, situação contínua) e o perfeito insere o fato pontual que movimenta a narrativa. É a divisão de trabalho clássica entre os dois tempos.
Questão 9 avançada
Qual frase apresenta uso inadequado do tempo verbal?
Quando criança, eu brincava na rua todos os dias.
Ontem eu chegava atrasado e perdia a primeira aula.
Ele estudava muito, mas naquele dia não abriu o livro.
A casa era pequena e tinha um quintal grande.
A segunda frase. "Ontem" marca um dia específico e concluído, o que pede pretérito perfeito: "cheguei" e "perdi". As demais usam o imperfeito corretamente, para hábito ou descrição.
A voz do personagem
Capítulo 4 · Discurso direto e indireto
Duas formas de trazer a fala para o texto
Discurso direto
Reproduz a fala exatamente como foi dita . Marca-se com travessão ou aspas, geralmente com um verbo de elocução (disse, perguntou, gritou, respondeu).
— Não vou embora agora — disse Marina.
Marina disse : "Não vou embora agora."
Discurso indireto
O narrador conta o que foi dito, integrando a fala à narração, em geral com a conjunção que .
Marina disse que não iria embora naquele momento.
O que muda na conversão
Elemento Direto Indireto
Pessoa
1ª (eu, meu)
3ª (ele/ela, seu)
Tempo verbal
presente / futuro
recua para o passado
Tempo e lugar
agora, aqui, hoje
naquele momento, ali, naquele dia
Pontuação
travessão ou aspas
sem marcação especial
Exemplo resolvido · convertendo
Direto: — Eu vou viajar amanhã — falou Pedro.
Pessoa: "eu" vira "ele".
Verbo: "vou viajar" (presente/futuro) recua para "iria viajar".
Tempo: "amanhã" vira "no dia seguinte".
Resultado: Pedro falou que ele iria viajar no dia seguinte .
Qual escolher
O direto dá vivacidade — o leitor "ouve" o personagem, com o jeito próprio de falar. O indireto é mais econômico e mantém o controle do narrador, útil quando a fala exata não importa. Autores alternam os dois de propósito, conforme querem aproximar ou resumir.
Pratique
Capítulo 4 · Prática
Pratique o que leu
Questão 10 básica
Qual das frases está em discurso indireto ?
— Estou com fome — reclamou João.
João reclamou que estava com fome.
João disse: "Estou com fome".
"Estou com fome!", gritou João.
"João reclamou que estava com fome." A fala foi integrada à narração pela conjunção "que", sem travessão nem aspas, e o verbo recuou para o passado. As outras três reproduzem a fala literalmente.
Questão 11 intermediária
Convertendo "— Eu chego hoje à noite — avisou Clara" para o discurso indireto, obtém-se:
Clara avisou que eu chego hoje à noite.
Clara avisou: eu chego hoje à noite.
Clara avisou que chegaria naquela noite.
Clara avisou — eu chego hoje à noite.
"Clara avisou que chegaria naquela noite." Três mudanças ocorrem juntas: a pessoa passa de 1ª para 3ª, o verbo recua ("chego" → "chegaria") e a referência temporal se ajusta ("hoje" → "naquela"). As outras opções mantêm marcas do discurso direto.
Questão 12 avançada
Por que um autor escolheria o discurso direto em vez do indireto numa cena de discussão?
Porque o discurso indireto é gramaticalmente incorreto em diálogos.
Porque o direto reproduz a fala literal, dando vivacidade e revelando o jeito de falar de cada personagem.
Porque o discurso direto ocupa menos espaço no texto.
Porque só o discurso direto pode ser usado em narrativas de ficção.
Porque dá vivacidade e revela a voz de cada um. Numa discussão, o modo de falar é parte do conflito — e isso se perde no resumo do indireto. O indireto, aliás, costuma ser mais econômico, não o contrário; e ambos são corretos e usados em ficção.
O que lembrar e próximo passo
Fechamento
O que você precisa lembrar
Elementos da narrativa
Enredo: situação inicial → complicação → clímax → desfecho .
Sem conflito não há narrativa, apenas relato de rotina.
A ordem contada pode diferir da ordem vivida (flashback).
Antagonista é quem se opõe ao protagonista — pode ser um sentimento ou uma circunstância, não só um vilão.
Espaço e tempo criam clima; raramente são apenas cenário.
Narrador
Narrador ≠ autor. O narrador é uma voz criada dentro da obra.
1ª pessoa : usa "eu", está na história, só sabe o que viveu.
3ª observador : relata apenas o visível.
3ª onisciente : sabe pensamentos e sentimentos de todos.
A escolha do narrador define o que o leitor pode saber.
Tempos verbais
Pretérito perfeito (chegou): ação concluída — faz a história avançar.
Pretérito imperfeito (chegava, era): hábito ou descrição — monta o cenário.
Fato único e datado pede perfeito, não imperfeito.
Discurso
Direto : fala literal, com travessão ou aspas.
Indireto : fala integrada à narração, geralmente com "que".
Na conversão mudam pessoa, tempo verbal e referências de tempo e lugar .
Para onde seguir
O 3º bimestre trabalha os textos que descrevem e informam — relato, notícia e verbete —, e traz a análise de mais classes de palavras: verbo, advérbio e pronome.
Conexão com História
Narrador e fonte histórica são o mesmo problema em roupas diferentes. Um relato em 1ª pessoa na ficção e uma carta de época na História pedem a mesma pergunta: quem conta, do lugar de quem, e o que essa posição deixa de fora?
neuren
Você chegou ao fim do 2º bimestre.
Sobre este material. Texto, exemplos e questões originais, produzidos pela Neuren. Fontes de referência curricular: BNCC e Currículo em Ação (SEE-SP). Nenhum trecho foi reproduzido.
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